sexta-feira, 13 de abril de 2012

Relato da cesárea de Érian e do nascimento da princesa Ester


Érian entrou em contato comigo pela internet (facebook ou e-mail, não lembro), quando estava com 24 semanas. Disse que gostaria do acompanhamento de uma doula e que gostaria que seu parto fosse domiciliar. Me contou que tinha uma cesárea anterior de 6 anos. Depois de mais algumas conversas ela decidiu que eu seria sua Doula.

Demorou um pouco para nos encontrarmos, até tentamos nos falar pela webcam, mas não conseguimos. Sempre me mandava noticias de como estava, como tinham sido as consultas no posto de saúde. Nesta época havia entrado em contato com uma equipe de parto domiciliar da capital,  e uma parteira. Mas não deu certo devido aos valores e condições de pagamento.

Decidimos procurar hospitais que deixariam pelo menos a doula entrar, fomos sondando e ficamos com 3 alternativas, mas a melhor opção seria o hospital de Clínicas. Um dia Érian me enviou uma mensagem dizendo que havia encontrado uma equipe numa cidade próxima. Ela estava ansiosa pelo encontro com a médica. Nesta época ela já estava com 35 semanas de gestação. A médica disse que não poderia assumi-la de imediato, pois viajaria, e talvez quando ela voltasse Ester já teria nascido. Mas combinaram de se falar na volta, se caso não tivesse ocorrido o parto. E assim foi. Érian e Fernando estavam muito satisfeitos com a conversa, e felizes, pois conseguiriam o parto domiciliar tão esperado.

Fomos nos encontrando e conversando sobre alguns aspectos do parto, intercorrências, plano B, e outras coisas. Creio que no total foram 5 encontros maravilhosos, e recheados de muita alegria. Quando Érian estava com 39-40 semanas fui pintar sua barriga, para guardarmos uma lembrança especial, e foi uma tarde fabulosa.

Estávamos só aguardando Ester dar sinal de que estava vindo, enchermos a banheira, que foi emprestada de uma amiga, e aproveitar o momento mágico que é o nascimento de uma criança. Mas nesta ultima mudança de lua, Érian me chamou no facebook e deu a má notícia...A equipe que assistiria o parto dela, não o iria fazer mais. Foi um choque! No dia seguinte fui vê-la e estava visivelmente abalada...
Disse à ela que não importava, que nós iriamos  para o hospital escolhido, que tem suite individual, com bola, cavalinho, ducha quente, “humanizado”, e que tudo daria certo. Érian não tinha medo de não conseguir, mas sim da equipe que a atenderia no hospital, e se eles a respeitariam.

Poucos dias depois da triste notícia, ela entrou em fase latente, com cólicas e dores nas costas. Uma amiga dela, que aplica acupuntura, deu uma força, estimulando alguns pontos. Contrações a cada 15 minutos, às vezes encurtavam, mas espassavam novamente. Érian contava elas a cada 3 minutos. Como eles moram a 1 hora da minha casa, decidi ir lá e partejar.Cheguei pelas 15 horas, e as contrações estavam a cada 15 minutos mesmo. Decidimos ir na Adriana fazer outra sessão de acupuntura para ver se engrenava. Érian ainda estava chateada pelo seu desejo de ter um parto domiciliar não ter acontecido. Depois da sessão as contrações começaram a vir a cada 7 minutos. Fernando fez uma torta de atum com azeitona e pimenta maravilhosa. Comemos muuuito!

Érian tentou descansar, mas não conseguiu. Foi para ducha e lá ficava um tempo, saia, ia para bola, e assim ficou. Pelas 12 hs da noite fomos todos tentar dormir. Érian já estava com contrações a cada 5 minutos, e não conseguiu dormir, relaxar. Pelas 4 hs as contrações começaram a ficar de 4 em 4 minutos e querer diminuir mais o intervalo. Érian e Fernando temeram em sair muito tarde, pegar trânsito e ter a possibilidade de Ester nascer no carro. Quase 6 hs da manhã saímos em direção ao Hospital de Clínicas. Mas no carro as contrações aumentaram de intervalo. Me dei conta de que talvez devessemos ter ficado mais tempo em casa...

Chegamos ao hospital e Érian começou a fazer a ficha, e foi para sala de avaliação. Fui com ela e Fernando aguardou no corredor. Foi preenchida uma ficha e perguntado sobre sua césarea, sobre o pré natal, exames, etc. Nisso entra uma academica. A médica fez um toque e disse que ela estava com 6 cm. Ficamos felizes. Depois veio outra médica, fez as mesmas perguntas e fez outro toque...na verdade eram 4 cmde dilatação. Ai começou a complicar. A médica alegou que como Érain tinha uma cesárea, mesmo sendo de quase 7 anos, ela deveria ficar o TP todo no monitoramento contínuo ( MAP). A indignação da minha doulanda era visível.

No quarto tentamos argumentar sobre o MAP, mas nada. Fernando ainda aguardava para entrar. Eis que surge um “pelotão” dentro do quarto, dois médicos, que ainda não tinhamos conhecido, e uns 5 acadêmicos de medicina. Érian respondeu a várias perguntas, foi avaliada por um enfermeiro (eu acho), que ficava com a mão na barriga vendo a dinâmica das contrações por 10 minutos....aff! Isso era desconfortável e Érian não estava gostando nada (eu menos ainda). Ela perguntou a médica- professora se realmente teria que ficar no MAP, pois sua cesárea era muito antiga.  A médica disse que não havia a necessidade e que pediria para deixarem ela caminhar, usar a bola...mas isso não aconteceu.  A primeira médica que a atendeu veio conversar com ela e explicar a “ imprencidível” necessidade dela ficar sendo monitorada frequentemente. Tentei argumentar, mas quase fui expulsa do local. Na realidade, minha presença incomodava muito a equipe que estava lá. Resolvi me acalmar e ficar quieta, para não correr o risco de minha doulanda ficar sem suporte.

Logo depois disso Fernando chega, e contamos tudo o que estava acontecendo. Chegou uma hora que ela queria ir no banheiro e teve que implorar para tirarem ela do MAP.  Gente sem noção, desumana ao cubo. Mas eis que às vezes surgiam enfermeiras maravilhosas e tentavam ajudar.Quando conseguimos tirar Érian do maldito MAP, disse a ela que ficasse o máximo possível no banheiro. Mas sempre, a cada hora, religiosamente a colocavam no MAP, faziam o exame de toque, às vezes dois de uma só vez, e ficam apalpando a barriga para ver a porcaria da dinâmica! Olha que saco viu! As contrações espassam sempre que entrava algum chato para fazer não sei o quê....que merda tá?! Tô puta com isso. O desrespeito era claro, e não acatavam nada do que ela pedia.

Cansada, com fome, sendo invadida o tempo todo, Érian começou a travar. Fernando e eu tentávamos animá-la, mas estava claro o cansaço, a indignação, a frustração. Estávamos sendo engolidos pelo sistema. Os médicos estavam sem paciência, porque ela não dilatava do jeito e no tempo que eles queriam. Ai começaram as intervenções. Primeiro rompimento artificial da bolsa. As contrações apertaram um pouco, fomos para ducha graças ao anjo chamado Sandra, enfermeira, que foi falar com a medica para pedir autorização. Mas 1 hora depois de novo o MAP, toque, etc, etc, etc. Depois nada de evolução, a opção ocitocina e remedinho para dor. Ai ficou punk!  E a ordinária da médica, ainda alertou, “se não dilatar nada em uma hora vamos ter que fazer cesárea!”. Em uma hora Érian dilatou meio dedo. A médica, cara de pau, deu o diagnóstico de desproporção céfalo- pélvica, com 6 dedos de dilatação....olha que merda!

Érian sabia que era mentira, mas sabia que não conseguiria mais vencer o sistema. Aceitou a cesárea dolorosamente imposta! Fernando e Érian queriam que eu ficasse com eles durante a cirurgia. Ela na verdade não queria ver nada de tão chateada que estava, mas  falei para não fazer isso... Uma enfermeira, charope,  disse que eu não podia ficar durante a cirurgia, porque não tinha mais utilidade, e que eles precisavam controlar o ambiente...acho que sou leprosa, só pode!

Mesmo assim, com todo este desrespeito, Ester nasceu muito bem, às 18:29 do dia 10 de abril, pesando 3390 gramas e medindo 51 cm de puro charme! Linda demais. Ester mama que é uma beleza. Agora estão só no aguardo para ir para casa.

Minha flor Érian, te agradeço por me deixar te auxiliar neste momento de alegria que é o nascimento de um filho. Foste guerreira, aguentou coisas que muitas não teriam aguentado. Não fique triste, agora é cuidar da pequena Ester e da fofura da Máh! Vou estar contigo, te apoiando sempre!

Fernando, também te agradeço! Deste toda força possível a Érian, e não esmoreceu um minuto sequer. Te agradeço muito mesmo!

OBS: Me desculpem os palavrões, leitores do meu blog. Mas tô de cara com tudo o que aconteceu...muito irritada, querendo fazer horrores....querendo matar 3!!! Este é um relato indignado de uma mulher, de uma mãe, de uma doula...


17 comentários:

  1. Ana, querida!! Estou solidária contigo, nesta tua indignação! Quanta barbaridade... Isso que nossa querida Érian estava muito bem informada e acessorada! Imagina as parturientes que vão e são atendidas dessa maneira, como se fosse "normal"! Isso também me chateia muito!
    Nessas horas que vejo que foi uma felicidade muito grande ter a Dra Ana Cláudia atendendo pelo Ipe e a Zezé como doula. Tive um parto hospitalar dentro do que eu planejei, com muito respeito e carinho (e sem desembolsar nada), no Divina Providência. Não sei quanto ela cobra particular, e se tu chegas a indicá-la para tuas doulandas, mas acho ela uma opção bem viável para quem não pode ou não quer domiciliar, e como outra opção além do Ricardo. Sei lá, só uma ideia, né?
    No mais, parabéns pelo trabalho,pelo carinho e dedicação e parabéns principalmente a nossa heroína Érian! Felicidades e amor a nova família e muito leite para Ester!
    Beijos

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    1. Oi Josi!! Grata pelas palavras! Sim, indico a Ana Claudia, mas Érian não tem convênio e muito menos podia pagar particular, pedir empréstimo, ou algo assim. Ela precisava muito de apoio além do usual, que alguém entendesse as dificuldades materiais que tinha,entende? Queria pagar, mas que facilitassem, mas não foi possível. Mas obrigada pela sugestão. Ana Claudia esta com uma tentante minha, e só ouço falar bem.
      Um beijo!

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  2. Eu imagino toda a tua indignação! Não tem como uma mulher dilatar com tanta gente fazendo exame de toque, com MAP, e "baralho a 4"! Não tem como se entregar e deixar a natureza fazer seu trabalho se há tanta interferência. É uma pena que as coisas não saíram como o planejado, mas que bom que todos estão bem. Só sendo mulher pra aturarmos essas coisas.

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    1. Ai Tassi! Nem me fale, são tantas coisas que me chateiam...não só do hospital...mas....

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  3. Ana , eh muito triste isso , hj em dia o "normal" eh fazer cesaria e não a mulher trazer ao mundo seu filho , fico muito desanimada com isso , pq sendo convenio ou SUS tudo cai na mesma Cesaria , eles nao tem mais paciencia nenhuma e nem respeito conosco , minha medica ja me disse que eu posso ir para o hospital com contracoes de 10 em 10 minutos que vao me fazer cesa , um absurdo , no parto da Mariana nem chance nao me deram de parir , perguntei ao medico pq tu nao induz meu parto? e ele me respondeu pq to sozinho no plantao e nao tenho tempo pra inducao.....e ainda querendo que eu pensasse que a guria corria riscos...ela nasceu com apgar 9 10 , o que me mef acreditar no meu instinto de4 que ela estava muito bem...infelizmente esse eh nosso brasil...saude pra Esther e Forca pra erian , pq eu sei bem o que eh desrespeito...um beijo pra vc...

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    1. É flor! Agora é bola para frente. Não te preocupa, pensamento positivo, vais conseguir! Não podes desistir sem tentar, hem?!

      Beijos!

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  4. Que lástima! O desrespeito à mulher é pré-histórico. Essa luta tem que continuar, o direito de parir tem que ser respeitado. Lamento por tudo isso. Tbém fui vítima do desrespeito e por isso não tive mais filhos. Me decepcionei.

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  5. Não existe seis "dedos" de dilatação!
    O que existe são centímetros de dilatação.

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    1. Muito obrigada pela correção! Pelo visto és da área "anonimo".

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  6. Bendito amor irmã, seu trabalho é lindo. Agradeço pelo acompanhamento tão especial deste nascimento.
    Bendito seja o nascimento da princesinha Esther. Mãe guerreira, linda, forte e virtuosa foste minha irmã Erian Dandara. Teu exemplo se faz forte para nós omegas.
    Jah tudo vê e cuidou grandiosamente de sua amada desde o ventre. Ele é quem dá a vida e saúde para esta criança, e protege seus pequenos da mecanização e crueldade do homem. Vida longa a abençoada princesinha de Israel Ester Metsat Perez Jardim!

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    1. Bendito Amor! Não há o que agradecer, flor!! Muito obrigada pelas palavras!

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  7. Poxa Ana Luisa, estou aqui em prantos na minha alma!Indignada, é por isso que seguirei gritando pra quem quiser ouvir sobre a humanização e especialmente ao direito de parir em casa.Infelizmente a sociedade nos fez acreditar que se parirmos em casa podemos ter complicações ou o bebe pode morrer, mas hj em dia depois do meu ultimo parto(onetm completou 2 meses), eu sei e posso repetir incansavelmente que podemos parir em casa, não há nada que essa classe miserável de intervencionistas saiba fazer melhor do que intervenções, então mesmo parecendo loucura eu digo: Parir?É melhor em casa!Eu sei que nem todo mundo pode pagar, mas pera aí?Que raio de humanização é essa?Que só os abastardos podem viver?Eu, como Eriam, não pude pagar, e por isso pagamos com alma,pois a cicatriz interna essa nunca ira se apagar.Graças a vc ela teve um pouco de alento, eu não tive doula comigo (infelizmente)cheguei no hosp já no periodo expulsivo do TP, e mesmo dizendo que não queria e nem precisava de ocitocina eu tive que aceitar, tive episio, bolsa rota artificialmente, e isso me doi ate hj,imagino como está nossa flor Ériam...Mas o que me move hj levantar a bandeira da humanizaçao ,é justamente ter passado pelo que passei desnecessáriamente.Espero que esse relato sirva de alerta, que nos concientizemos de que não importa o quão preparada estamos, enquanto a sociedade não for consciente e der apoio as mulheres haverá esse tipo de arbitrariedade da classe médica.Eles conseguem nos intimidar e fazer acreditar que o que estão fazendo é o melhor ,mas nós sabemos que não é.Eu passei por procedimentos desnecessarios por medo que se não deixasse que fosse feito, acontecesse alguma coisa errada, pois da parte médica, eles não sabem atuar sem métodos mecanicos,não sabem respeitar a fisiologia do parto e da mulher, por isso nos coage aceitar o que eles sabem fazer, pq são despreparadospra fazer o o que tem de ser feito!Parabens pelo trabalho.Eu sei o que é ser engolida pelo sistema;Quando fui ao curso de gestande e disse que preferia ter uma doula , a ter que receber analgesia,a G.O. disse o seguinte :"Doula é uma leiga que fica fazendo massagens".(Quanta ignorancia), e quando eu fui falar da importancia e dos beneficios de ter uma doula durante o TP e Parto,fui interrompida e por pouco não fui convidada a me retirar.Mas acredito que isso poderá mudar.Não sou doula, sou apenas mais uma mulher,mãe, mamífera que foi coagida aceitar os termos "deles"para ter meu filho nos braços.Por isso presto minha total solidariedade, penso que juntas somos fortes.

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    1. Obrigada pelas palavras! Eu não sei mais o que falar...a revolta é muito grande...mas o amor pela pequena também.

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    2. Força amiga!!!!
      Infelizmente parto normal virou piada para os "cesaristas". Me sinto uma ET quando falo que quero que meu segundo filho venha por meios naturais. E estou no memso dilema, pois tive uma cesárea 3 anos atrás pela imbecilidade de uma médico que se dizia ser humanista. Agora estou na mesma que a Erian, tenho uma cesárea e não tenho dinheiro para pagar os altos preços dos mais preciosos médicos ou EO. Não posso ir numa casa de parto pois tenho uma cesárea. Não tenho apoio de ninguém para parir na minha casa.
      A situação dessa mãe é como a de muitas mulheres. Meu primeiro parto de traumatizou. Tenho fé em Deus para não se repetir o mesmo triste fato!!!!
      Coragem amigas doula e doulanda!!!!!!!!Um dia quem sabe as coisas mudam...temos que nos unir e falar muito sobre o assunto. Esclarer as futuras mamães é fundamental!!!
      beijos
      Erica POnte

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    3. Grata flor!! Não vamos esmorecer!
      Bjos!

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  8. Também quero prestar minha solidariedade a todas que passaram por essa violência em um momento que deveria ser mágico e prazeroso. Estou com 6 meses de gestação, tenho plano de saúde, mas devido a carência não posso ser assistida em um hospital. Me programei desde o início da gravidez para um parto domiciliar com enfermeira obstétrica e doula. Estamos economizando em tudo para relizar esse sonho! Não temos berço, não temos cômoda, cortamos muitos acessórios de enxoval. Realmente não é fácil, é uma luta constante! Mas sou consiente de quais são as reais necessidades do meu filho. Quanto a este relato, é preciso denunciar! Não podemos omitir essas barbáries!

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    1. Mayara, tenho certeza que tudo será do jeito que queres. O fato de se preparar tanto, já conta muito! Grata pela solidariedade!
      Bjo!

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